A "Engenharia" da Recuperação Judicial: O Plano do Paysandu para Sanar R$ 71 Milhões em Dívidas

Com descontos agressivos e prazo de 10 anos, clube bicolor busca fôlego financeiro para manter competitividade em campo enquanto reorganiza as contas.

Por Ana Martins

2026-05-09T02:40:25.605Z

Em 20 de fevereiro de 2026 , o Tribunal de Justiça do Pará (TJPA) oficializou a aprovação do pedido de Recuperação Judicial (RJ) do Paysandu Sport Club . O movimento jurídico visa enfrentar um passivo total que transita entre R$ 71milhões e R$ 75 milhões , permitindo que a gestão liderada por Márcio Tuma estanque o fluxo de execuções e reorganize o caixa. A decisão é um marco na governança do clube, estabelecendo um rito de transparência e austeridade necessário para a sobrevivência institucional e a continuidade das operações no futebol profissional.

A espinha dorsal da proposta submetida à Justiça reside na "novação das dívidas", processo que extingue os débitos originais para substituí-los pelas condições acordadas no rito da RJ. A engenharia financeira é pautada por um abatimento agressivo, carências prolongadas e um cronograma de pagamentos que se estende por uma década. O objetivo central é desonerar o cotidiano operacional do Paysandu , garantindo que as receitas atuais não sejam drenadas por contingências de gestões passadas, criando margem para investimentos no elenco.

As condições de pagamento propostas variam de acordo com a categoria do credor:

Dívidas Trabalhistas: Desconto de 50% sobre o saldo devedor, com quitação integral em até 12 meses . Credores Quirografários e com Garantia Real: Abatimento de até 85% , carência de 3 anos para o início dos pagamentos e parcelamento residual em 10 anos .

A radiografia do passivo revela 126 credores , com destaque para o débito de mais de R$ 50 milh õ es junto a Uni ã o No cen á rio local , o Paysandu busca equacionar debitos como Munic í pio de Bel é m ( R$ 3,44 milhões ), o Estado do Pará ( R$ 1,47 milhão ) e a Secretaria Executiva de Esporte e Lazer ( R$ 356 mil ). Essa concentração de dívidas fiscais e públicas exige uma coordenação técnica refinada para evitar novos bloqueios judiciais que comprometam patrocínios e verbas de transmissão televisiva.

Um ponto determinante para a viabilidade desse plano é a situação do ex-presidente Roger Aguilera . Embora figure na lista de credores com um crédito quirografário de R$ 12,3 milhões decorrente de aportes realizados durante sua gestão, Aguilera sinalizou formalmente que não pretende reivindicar esse montante. Essa renúncia implícita atua como um pulmão financeiro estratégico para o Paysandu , removendo uma pressão de cerca de 17% do passivo total e facilitando a aprovação das contas perante os demais credores.

O passivo trabalhista inclui nomes conhecidos da torcida bicolor. Entre os ex-atletas, o goleiro Matheus Nogueira possui crédito de R 386.236,10, enquanto o atacante Mau rí cio Garcez cobra R$ 266.546,08 . Outros débitos envolvem Marlon ( R$ 180.000,00) e Marcelinho ( R$ 119.999,98 ). Até integrantes do elenco atual de 2026 constam na lista, como o lateral Edílson ( R$ 117.000,00) e o goleiro Gabriel Mesquita ( R$ 102.511,40 ), cujos valores serão processados sob as novas regras de parcelamento da recuperação.

Esportivamente, a Recuperação Judicial funciona como um "escudo jurídico" durante o stay period de 180 dias . Este bloqueio contra penhoras é vital para que o Paysandu mantenha o investimento no futebol em meio às disputas da Série C e da final da Copa Norte . Sem o risco de sequestro imediato de receitas de bilheteria e premiações da CBF , o clube ganha tração para buscar o acesso, mitigando o histórico de desequilíbrio gerado por gastos acima da arrecadação e projeções de receitas frustradas em anos anteriores

Como contrapartida ao benefício legal, o Judiciário impôs obrigações rígidas de transparência. O Paysandu deve protocolar relatórios financeiros detalhados mensalmente até o dia 15 de cada mês. A eficácia definitiva da engenharia depende agora da Assembleia Geral de Credores; caso haja objeções aos termos propostos, o plano será levado à votação. Para o mercado e para a torcida, o sucesso dessa reestruturação definirá se o clube retomará sua saúde financeira ou se permanecerá refém de sua herança de dívidas milionárias.