Ponte Preta à beira do abismo: Greve, rifas e o iminente colapso na FIFA
Com dívidas de um ano e risco de sanção internacional, elenco da Macaca entra em rota de colisão com a diretoria por descaso administrativo.
Por Ana Martins
A crise institucional da Ponte Preta atingiu o seu ponto de ruptura mais dramático na noite da última quinta-feira. Em um ato de insubordinação que escancara a fragilidade do ambiente interno, os jogadores decidiram abandonar a concentração da equipe, deixando o hotel onde estavam hospedados. O grupo só retornou para o almoço de sexta-feira, véspera do confronto contra o América-MG, evidenciando um vestiário rachado pela total ausência de confiança na cúpula alvinegra.
O protesto é a resposta direta a um novo calote da diretoria. Há duas semanas, o Sindicato dos Atletas de São Paulo havia intermediado um acordo, estabelecendo um prazo final para que a gestão de Campinas quitasse ao menos um mês dos vencimentos atrasados. Como o compromisso foi ignorado, os atletas optaram pela medida drástica, transformando a preparação esportiva em um palco de reivindicação por direitos básicos.
A asfixia financeira não é um problema recente, mas uma ferida que apodrece desde o ano passado. A extensão da dívida é estarrecedora: diversos jogadores completarão este mês um ano inteiro sem receber salários. O levantamento interno aponta que, desde junho de 2025 até este mês de maio de 2026, parte considerável do elenco recebeu apenas três meses de vencimentos, configurando um cenário de insolvência que desafia as leis trabalhistas.
A degradação administrativa transbordou para o lado humano e atingiu o ápice da humilhação no caso do lateral-direito Pacheco. Antes de conseguir sua rescisão judicial, o atleta precisou organizar uma rifa com bilhetes a R$ 20 para garantir o sustento básico. Entre os itens rifados estavam chuteiras e uniformes usados na final da Série C do ano passado — um retrato desolador de um profissional que precisou se desfazer de memórias de glória para não passar fome, enquanto funcionários do clube seguem em igual penúria.
Há uma ironia perversa na formação deste elenco em colapso. A diretoria buscou nomes de peso e experiência, como o goleiro Diogo Silva (campeão da Sul-Americana pelo Vasco em 2011), o meia Elvis e o zagueiro David Braz. No entanto, a estratégia de montar um grupo com medalhões se provou um erro de gestão fatal, já que o clube não possui fluxo de caixa para sustentar os compromissos assumidos, gerando um efeito dominó de insatisfação que nenhum currículo vitorioso consegue blindar.
Como se o caos interno não bastasse, a Ponte Preta lida com uma bomba-relógio administrativa na FIFA. Após já ter sofrido um transfer ban que paralisou o departamento de futebol no início do ano, a Macaca corre o risco de nova punição internacional. O motivo é o atraso no pagamento da segunda parcela do acordo com o zagueiro Luis Haquin, em uma dívida precisa de R$ 227.777,75 que ameaça inviabilizar qualquer registro de atletas para o segundo semestre.
O reflexo dessa gestão temerária no campo foi o vexame histórico no Paulistão 2026. Sem poder inscrever reforços devido às sanções, o clube foi obrigado a jogar com metade do elenco formado por jovens da base. O resultado foi o rebaixamento para a Série A2 como lanterna geral da competição, encerrando o torneio com a marca vergonhosa de zero vitórias em oito partidas disputadas — uma sentença esportiva para uma administração omissa.
Na Série B do Campeonato Brasileiro, o fantasma da queda para a Terceira Divisão é real e imediato. Após sete rodadas, a equipe ocupa a incômoda 16ª posição com apenas 7 pontos conquistados, conforme a tabela oficial da CBF. A proximidade com a zona de rebaixamento coloca o time em uma situação de pressão extrema, onde a margem de erro é inexistente e o clima de "salve-se quem puder" domina os corredores do Moisés Lucarelli.
O próximo desafio contra o Sport, em Campinas, será um teste de sobrevivência para o técnico Rodrigo Santana. Internamente, o treinador tem cobrado mais "voz" e liderança do setor defensivo para tentar organizar o caos tático. Contudo, em um clube onde os atletas precisam rifar chuteiras para comer e a diretoria ignora prazos sindicais, a busca por liderança parece ser o menor dos problemas diante do iminente colapso institucional da Associação Atlética Ponte Preta.